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EUA x Venezuela: quais são os impactos no petróleo?

Sanções e ataque ampliam incerteza no setor petrolífero


Foto: Pixabay

A reação do mercado internacional de petróleo após a ação dos Estados Unidos na Venezuela e à captura do presidente Nicolás Maduro começou com uma elevação dos preços, refletindo o aumento das tensões geopolíticas, mas perdeu força logo após a ofensiva militar. Segundo análise de Gustavo Vasquez, gerente de petróleo e GLP da Argus, a ampla oferta global limitou movimentos mais expressivos das cotações, apesar do cenário de incerteza em torno da produção e das exportações venezuelanas.

De acordo com Vasquez, antes da ofensiva, o acirramento das tensões entre Washington e Caracas já vinha sustentando preços mais firmes do petróleo. Após a ação militar, porém, “a reação dos preços foi contida diante da ampla oferta global”, avaliou. Ele destaca que, até o momento, não houve mudanças concretas na produção venezuelana, mas o ambiente é marcado por riscos elevados e falta de clareza sobre a continuidade das exportações.

A incerteza já vinha se desenhando nas semanas anteriores ao ataque. Segundo a Argus, fornecedores demonstravam relutância em oferecer cargas de petróleo venezuelano após a apreensão de dois navios pelos EUA em dezembro. Vendedores chegaram a reter ofertas do tipo Merey para entrega no fim de janeiro, antecipando possíveis interrupções mais relevantes a partir do final do primeiro trimestre de 2026. Vasquez observa que qualquer paralisação prolongada teria impacto concentrado no mercado de petróleo pesado e com alto teor de enxofre.

A análise aponta que a Venezuela segue parcialmente isolada dos mercados globais devido às sanções norte-americanas. Em 2025, refinarias independentes da China absorveram cerca de 430 mil barris por dia de petróleo venezuelano, volume que representou menos de 20% do processamento das pequenas refinarias privadas chinesas. As estatais do país não realizam importações, apesar dos descontos elevados. Já os Estados Unidos figuraram como segundo maior destino, com aproximadamente 120 mil barris por dia em dezembro, importados exclusivamente pela Chevron, única empresa autorizada a operar no país.

Para Vasquez, não há perspectiva realista de aumento imediato da produção, estimada em 934 mil barris por dia em novembro. Ele ressalta que a retomada aos níveis anteriores às sanções, de cerca de 1,2 milhão de barris por dia em 2018, exigiria o fim das restrições e mudanças profundas no ambiente legal e empresarial, cenário considerado improvável diante da instabilidade após a deposição de Maduro.

A reconstrução da infraestrutura petrolífera venezuelana também é vista como um processo longo e oneroso. Segundo a análise, restaurar a capacidade histórica próxima de 3 milhões de barris por dia demandaria anos e investimentos de centenas de bilhões de dólares. Vasquez lembra que refinarias enfrentam falhas recorrentes, como no caso de Cardón, além de danos estruturais, furtos de equipamentos e décadas sem manutenção adequada. A indústria ainda sofreu uma “fuga de cérebros”, com a saída de técnicos e engenheiros desde os anos 1990.

No mercado de fretes, as exportações venezuelanas seguem dependentes da chamada “frota sombra”, formada por navios fora do mercado convencional. Excluindo a Venezuela, o afretamento na América Latina permaneceu estável após o ataque, com taxas em níveis baixos na rota Brasil–China. Vasquez alerta, no entanto, que uma eventual interrupção no envio de nafta russa à Venezuela, usada na mistura do petróleo pesado, poderia pressionar os fretes nessa rota.

A China reagiu com críticas à prisão de Maduro, influenciada pelos investimentos de empresas chinesas no setor upstream venezuelano e pela dívida estimada em US$ 12 bilhões do país sul-americano com Pequim. Apesar disso, a Argus avalia que não há escassez de petróleo no mercado global, o que reduz a probabilidade de impacto relevante nos preços internacionais. O ponto sensível está no fornecimento do Merey-16, petróleo pesado destinado principalmente à província chinesa de Shandong. Segundo Vasquez, “qualquer interrupção nas importações de Merey venezuelano pode reduzir a produção de betume a partir de março”, uma vez que as cargas negociadas agora chegam ao mercado naquele período.

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